carta aberta
essa edição é uma carta aberta para o meu vizinho do 115B. mas se quiser ler, fique a vontade, é aberta.
querido vizinho, aqui é a vizinha do 209A. como você bem sabe, as notícias aqui do condominio circulam muito rápido e eu fiquei sabendo da reuniãozinha que os senhores do Bloco B fizeram ontem a noite.
foi muito inteligente marcar esse encontro logo numa terça, já que os senhores sabem que é o horário que eu saio com as meninas para salsa. mas ontem, eu toda pronta, de brinco e tudo, falei pra irem na frente e fiquei ouvindo conversa, de fininho aqui da janela.
fiz toda a cena pra ninguém desconfiar. as meninas chegaram de carro, buzinaram e quando saíram eu continuei aqui. deixei todas as luzes da casa apagadas, como se fosse uma intrusa do meu próprio lar.
então sim. eu ouvi tudo o que o senhor disse ao meu respeito. e, sinceramente, achei que já estavamos superando aquela história toda com o sindico. até tinha escrito uma carta de recomendação, em meu nome, pro proprietário do imóvel da Rua das Caldeiras, dizendo que tudo não passava de um mal entendido e que eles deveriam reconsiderar a sua proposta.
me senti meio boba. pois deveria ter desconfiado que as coisas não estavam boas entre a gente, quando começaram a olhar tanto aqui pra dentro de casa.
não por acaso, no mês passado, eu decidi comprar umas cortinas novas, daquelas mais caras e de tecido mais grossinho. pra afastar os bisbilhoteiros aqui do prédio. quem delatou essa parte foram as crianças, elas são péssimas disfarçando os olhares curiosos.
aliás, eu tenho lustrando com mais afinco o candelabro que fica na frente da janela, pro caso do vento bater mais forte oferecendo alguma fresta. sabe como é, né?
mas te contar, que do meu lado fazia um tempo que o seu rosto não cruzava meus pensamentos. na verdade, eu sempre me lembro do senhor naquela tarde pacíifica voltando do mercado. quando nos encontramos por acaso lá na entrada e perdemos uns minutos falando sobre solidão.
o senhor muito gentilmente me ajudou a carregar as sacolas até a minha casa. que apesar de ser no térreo, rende um bom papo de caminhada.
sempre me surpreendo quando lembro que o seu pai está com a mesmíssima doença que levou o meu avô há um pouco mais de um mês. acho que você também ficou sabendo quando saiu no obituário.
ainda é meio esquisito como eu consegui viver tudo ao mesmo tempo. quer dizer, eu estava preocupada com o maldito candelabro enquanto preparava um inventário e me perguntava se deveria fazer mais um teste de gravidez? odeio admitir esse tipo de mesquinharia.
mas querido vizinho, eu achei que lidaria melhor com toda essa situação. afinal, eu trabalhei metade da vida nas escolas aqui da região e, quando se trabalha em escolas cria-se a ideia de que você já passou por tudo e, ao menos a comunidade local irá nutrir algum senso de respeito e gratidão.
mas, quando ouvi a marcha orgulhosa do grupo de senhores zangados se dispersando para suas respectivas casas. eu já estava trêmula e gelada.
anotei algumas dúvidas que atormentaram minha noite. principalmente porque você não deixou que a realidade dos fatos atrapalhassem a sua opinião durante as 3 horas inteiras de discurso. não precisou de nenhuma prova para que o grupo acredisse nas suas palavras.
qual será a sensação de falar sabendo que todos acreditarão em você?
eu me identifiquei com o senhor, quando contou o quanto aquela confusão com o síndico te prejudicou. não sei se entendi certo, mas você confessou que ficou envergonhado com a fofoca que seu sobrinho que trabalha lá no banco fez e que te rendeu um interrogatório no jantar de família.
eu venho enfreitando algumas situações parecidas desde que o senhor começou a espalhar mentirar sobre mim a qualquer um te desse um minuto de fala no hall do prédio.
até meu pai me escreveu uma carta perguntando se está tudo bem. e ele nunca me escreve. nunca. não por acaso, pois ele recebe correspondência do amigo do tio do senhor, que mora no 651B e com certeza já está sabendo do abaixo-assinado.
sinceramente, eu não acho que o senhor vá conseguir muitas assinaturas aqui no Bloco A. eles me tem em alto-estima depois das benfeitorias que eu propus pro prédio nesses últimos anos. como a área de lazer e o parquinho onde os seus sobrinham brincam quando vem visitar o senhor durante as férias escolares.
claro, também tem a parte de me considerarem confiável, já que eu moro aqui no prédio há algum tempo e tenho sim as minhas amizades. as meninas da salsa mesmo, ficaram atônitas quando descobriram que o senhor estava tentando me encriminar sem nenhum motivo claro.
elas falaram que é porque eu sou uma mulher forte e poderosa e isso incomoda os homens. mas, honestamente, eu não consigo acreditar nelas. caso contrário, eu não teria tido o meu coração despedaçado por um grupo de senhores que, no fundo, eu já sabia que não tinham nada de bom para oferecer.
de qualquer forma, estou te encaminhando esta carta para que os senhores saibam que estou instalando percianas de muitíssima boa qualidade nessa próxima segunda. os homens vem de caminhão e tudo.
te escrevo com certa pressa porque logo mais estou saindo para noite de salsa com as garotas, pois se os senhores conseguirem me tirar do prédio, ao menos saberei que tive uma estadia maravilhosa a custo da paz de um monte de calvos.
Atenciosamente,
vizinha do 209A
bom, como vocês podem imaginar, esse é um texto de ficção. estou experimentando esse tipo de escrita em outros canais e decidi trazer essa pequena amostra aqui pra newsletter. espero que gostem do formato :)



Que texto ótimo! Muito criativo, elegante, e prendeu minha atenção do início ao fim. Uma das coisas que mais gosto na literatura é essa possibilidade de transformar uma experiência ruim em um texto bom. Espero que tudo se resolva da melhor forma para você. Forças! 🌸
Ameiii ler ficção aqui! ✨🫶